Inspiração

Hospitalidade: acolhimento em tempos de crise

Olá! Eu sou a Michelle Caçapava Vigueles, turismóloga de formação, especialista em administração e organização de eventos e comunicação jornalística, agora mestranda em hospitalidade. Trago aqui algumas palavras sobre os ocorridos desses últimos dias, solidarizando-me com todos os cidadãos do mundo, e em especial àqueles ligados às minhas áreas de formação, a quem tanto sofrem com um futuro incerto de setores que sempre movimentaram a economia do mundo: turismo e eventos.

 

Minha pesquisa para a dissertação do mestrado tem como principal foco a hospitalidade nas feiras de economia criativa. As famosas feiras de pequenos empreendedores – pequenos na escala, mas grandes na criatividade. Elas têm como propulsores os organizadores que promovem, com muito carinho, momentos únicos voltados à economia manual, que resgatam uma vivência cultural, social e familiar a partir da união de forças especiais.

 

 

Momento de se reinventar

Visitei inúmeras feiras e bazares pela cidade, em espaços públicos e privados, com expositores diversos que apresentam seus produtos de formas inovadoras, criativas, diferentes, sustentáveis e preocupados com o bem geral, mas que agora estão, também, confinados. E, se antes a oportunidade de um convívio social e apresentação de seus produtos era feita corpo a corpo, com a experiência do toque, do cheiro, do som, do gosto e do visual, agora eles têm que se reinventar ainda mais para sobreviver nos meios digitais. Assim como os organizadores que proporcionam essas interações presenciais, e agora precisam pensar em como transformá-las no mundo virtual.

 

Em meio ao caos, às incertezas, ao medo e às dúvidas que todo o cenário da pandemia do Coronavírus trouxe, acendeu-se em nossos corações e em nosso mais íntimo sentimento, as chamas de amor, de compaixão, de empatia, de valorização e de reconhecimento do outro.

 

Aprendemos e estamos aprendendo ainda a resgatar alguns valores que estavam adormecidos em nossa alma e em nossa mente. Talvez por conta da correria diária que nos encontramos, talvez por não entender que era prioridade, ou por qualquer outro motivo que seja. Mas tivemos que parar. Parar e olhar para nossa volta e para dentro de nós. Olhar para os problemas que estamos enfrentando e pensar em formas criativas e positivas de como superá-los.

 

Toda essa experiência, e podemos assim dizer que essa é mais uma experiência em nossas vidas, nos fazem aprender, e também a crescer, a nos desenvolver e a ser mais fortes. E se fizermos tudo isso no coletivo, pensando no bem comum, o jargão – Juntos somos mais fortes – será apropriado.

 

 

 

Acolhimento digital

Um grupo engajado em encontrar soluções que beneficiem a todos nos faz ter mais esperança e segurança de que vamos superar tudo isso. Pode demorar, pode não demorar, mas o que sabemos é que isso vai passar. E quando passar, teremos entendido que pensar pelo coletivo, acolher os pares, os concorrentes, os iguais e os diferentes só nos faz revelar a pessoa hospitaleira que somos e queremos cada vez mais continuar sendo.

 

Vender é importante, mas tem prazo determinado. Construir relações é para sempre. E é por isso que, se conseguirmos unir esforços e dar os braços uns aos outros, seremos sempre uma rede maior, uma rede fraterna, uma rede hospitaleira, uma verdadeira rede de empreendedores criativos.

 

A hospitalidade é tudo isso e mais um pouco: acolher virtualmente a todos, sem distinção de raça, cor, religião, cultura, poder social e econômico. É ser o melhor anfitrião que as redes sociais nos permitem ser. É receber o outro de braços (virtuais) abertos. É estabelecer uma relação de bem-estar onde quer que seja. É tratar o outro como gostaríamos de ser tratados, com amabilidade e gentileza. Afinal, gentileza gera gentileza, certo?

 

 

Hospitalidade vs Hostilidade

Com tantos desafios novos, tensão e ansiedade rondando, todo cuidado é pouco. Hospitalidade e hostilidade caminham numa linha tênue, já que ambas só existem quando há relação entre duas ou mais pessoas. E aquele que não nos é conhecido ou estranho – ou ainda que não corresponde às nossas expectativas, nos faz temer e ter reações irracionais antes mesmo de pensarmos como seres  racionais que somos. E frear o instinto de atacar o outro faz-se necessário, ainda mais quando todos estão com a fragilidade exposta.

 

E apesar do distanciamento físico e isolamento social ser triste, já que, em sua essência, o ser humano foi feito para andar em grupos, é hora de aquietar nosso âmago e repensar todas as nossas relações, nosso papel nesse mundo e valorizar a tudo e a todos, indistintamente.

 

Que os organizadores das feiras e bazares possam se unir para, juntos, criarem soluções para suas empresas e negócios caminharem em direção ao bem comum, sem pensar em concorrência, mas sim em novas oportunidades. Além de inspirarem tantos outros em caminhar alinhado a um propósito, na missão de ajudar aqueles que vivem da exposição de suas criatividades nesses locais de receptividade.

 

Vamos fazer toda essa hospitalidade circular e nunca mais parar, pois a hospitalidade abraça tudo e a todos. E por que não, os meios digitais, virtuais e on-line também não podem abraçar a tudo e a todos com hospitalidade? Que essa emoção tome conta do nosso país e seja a cura para nosso futuro.

 

Aconchego e o hygge dinamarquês

Em tempos de isolamento, vamos aprender com os dinamarqueses?

 

Acender velas, ler um livro tomando chá, estar com quem se ama, provar uma comida gostosa, ficar embaixo das cobertas vendo Netflix… Essas e outras ideias resumem bem o termo dinamarquês hygge, que não tem tradução exata para o português, mas quer dizer mais ou menos aconchego. Tem tudo a ver com o estilo de vida desse povo nórdico, sempre eleito entre os mais felizes do mundo e que, por conta do frio intenso em grande parte do ano, está muito acostumado a passar bastante tempo dentro de casa.

Por isso mesmo, os dinamarqueses sabem tirar a felicidade das coisas pequenas e simples. Coisas que, agora, podem ser muito úteis para manter o bem-estar, a saúde física e mental e a motivação de todos nós, durante esses dias difíceis de isolamento. Nossa casa, no fim das contas, é nossa santuário, então por que não aproveitar esse tempo maior dentro dela para promover o hygge?

NÓssa amiga e jornalista Cristiane Sinatura separou 10 dicas inspiradas no Manifesto Hygge para aderirmos ao sábio (e feliz!) estilo de vida nórdico, que vale não só agora, mas em qualquer momento da vida!*

1. Atmosfera

De noite, acenda velas (ainda melhor se forem perfumadas!). Isso ajuda a criar um ambiente aconchegante e acolhedor.

2. Presença

Foque no aqui e no agora. Se está em casa com mais familiares, deixe o celular de lado e aproveite o momento para boas conversas.

3. Prazer

Café, chocolate, uma massinha com vinho, cerveja com petiscos. Permita-se alguns “exageros” para amenizar a tensão, o tédio, a ansiedade (mas lembre-se também de manter a rotina diária de exercícios, mesmo em casa!).

4. Igualdade

“Nós” acima de “eu”. É o momento de pensar no coletivo. Dentro de casa, divida tarefas para ninguém ficar sobrecarregado. Um cozinha, outro lava louça. Um limpa o banheiro, outro varre a sala.

5. Gratidão

Agradeça por ter uma casa para ficar neste momento (e em todos os outros), por ter saúde, por ter comida no prato, por ter com quem passar o tempo.

6. Harmonia

Evite discussões. Passar muito tempo com alguém dentro de casa pode gerar alguns atritos, mas respire fundo e, se necessário, fique um tempo sozinho em algum cômodo.

7. Conforto

Relaxe. Encha o sofá de almofadas, separe os livros, escolha as séries, capriche nas velas (de novo!). Ah, e mantenha a casa limpa!

8. Calma

Sem drama. Respire fundo, medite, pense positivo. Vai passar.

9. Conexão

Aproveite o momento para se conectar com família e amigos, estejam eles em casa com você ou mesmo pela internet. Um bom jeito de construir relações e narrativas começa assim: “você se lembra daquela vez em que nós…”

10. Abrigo

Sua casa é seu ninho, um lugar de paz e segurança.

* adaptado do livro “The Little Book of Hyyge – The Danish Way To Live Well”, de Meik Wiking

Imagens: Shutterstock.com

Carnaval Feito à Mão

Por Rosy MacQueen

Na Mega Artesanal 2018 teve uma exposição de bonecas assinadas por mulheres de muito talento – entre elas as ógenters Ana Matusita, Patrícia Nakamura, Thaís Kato e Ana Luísa Maisonnave. Eu estava especialmente encantada com os detalhes cheios de capricho da “Carmen Diva Miranda”, boneca da Kátia Callaça. Questionando a autora sobre o acabamento, o sapatinho, a mistura de materiais, ela resumiu “trabalhei em escola de samba, né?!” Aha, isso explica algumas coisas, não é mesmo? Aqui vamos contar um pouco mais sobre a experiência carnavalesca dessa ógenter multitalentos que é a Kátia.

Ícones do Carnaval Carioca

Formada em Belas Artes pela UFRJ, Kátia se considera uma pessoa de sorte por ter estudado na época em que o cenógrafo e carnavalesco Fernando Pamplona foi reitor da EBA. Kátia era aluna da Rosa Magalhães, que foi de um pioneirismo ímpar, por ser uma mulher carnavalesca.
“Na época do Fernando Pamplona a EBA só tinha fera. Fiz aulas com Beth Filipecki (figurinista), Ronald Teixeira (diretor de arte, cenógrafo e figurinista), Lygia Pape (escultora, gravadora e cineasta), só gente muito boa que era docente por lá, e isso foi muito enriquecedor para a minha formação.”
Kátia também carrega com muito orgulho em seu currículo uma palestra que o lendário Joãosinho Trinta fez dentro da EBA. A frase do carnavalesco ‘O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelecual ’ foi marcante. “Aqueles carnavais espetaculosos que ele fazia era para isso. A gente quer ver a beleza porque com a “brabeira” a gente já está agarrado no dia a dia (risos).”
Para Kátia esse é o grande significado do carnaval: é o nosso momento de estrela e de glamour, porque gostamos e precisamos dessa fantasia.

Entre plumas e paetês

As escolas de samba capacitam e empregam muita gente, principalmente no Rio de Janeiro, gerando trabalho para costureiros, artesãos, sapateiros entre outros. É como uma indústria, onde os diversos afazeres geram emprego e fomentam a economia do estado inteiro.
Quando Rosa Magalhães abriu a oportunidade de estágio no barracão para seus alunos, a universitária Kátia não perdeu tempo! É um local para fazer de tudo, trabalhar com todos os materiais e se envolver com projetos de profissionais que eram autoridade no carnaval do Rio de Janeiro.
A passagem pela escola de samba foi rápida mas enriquecedora. Kátia descreve o ambiente do barracão como encantador, um lugar que possibilita estar com a mão na massa onde a magia acontece.
A professora Rosa direcionava todo o trabalho e os estagiários faziam a supervisão da mão de obra dos artesãos, entre muita costura, cola quente, cola de contato, aviamentos, papelão, espuma e papel machê. “A gente tinha a função de direcionar o que precisava ser feito e corrigir qualquer eventual falha, porque a Rosa era bastante exigente no acabamento”, lembra. Com certeza Kátia traz consigo esse olhar atento, pois seu trabalho é permeado pelo lúdico nos mínimos detalhes, com um acabamento para Rosa Magalhães não botar defeito!

Faça você mesmo

Buscar uma experiência como essa em escola de samba é a dica da Kátia para quem curte diferentes técnicas manuais, não tem medo de trabalho e gosta de samba! “Tem que ir pra lá porque é bem legal! Foi uma experiência pessoal muito enriquecedora e muito bacana. Hoje tudo está muito facilitado porque tem vários blocos que estão indo para a rua, então tem gente trabalhando, fazendo adereço, vendendo, e para quem gosta de fazer arte no geral acaba sendo um lugar legal para estar.”
E você, qual tal se aventurar a criar algo para este carnaval?